terça-feira, fevereiro 26, 2013

Ousei.

       Nada no mundo me deixaria mais feliz neste momento do que uma caneca de achocolatado. Sim, um achocolatado bem doce, daqueles que passam como uma pasta no céu da boca. Uma pasta suculenta e cremosa.
        Mas não havia achocolatado no centro da cidade em uma matinê de quarta-feira. Quando o vi chegar, George parecia aflito. Eu estava sentando em um daqueles trailers que vendem uns sanduíches mais do que suspeitos, mas que são mais gostosos que qualquer fast-food de sucesso. Ele se aproximou e disse para sairmos dali imediatamente. Eu não sabia o que fazer, por que ele estava daquele jeito?
         George era tão calmo, tão sereno, até em seu jeito mais nervoso era gentil. Quando finalmente entramos no carro, ele saiu em disparada. Perguntei-o para onde estávamos indo, e ele respondeu: "A lugar algum, Charlie."
       Ele parou em um lugar com árvores e terra. A civilização ainda nos rodeava. Sua expressão estava tão séria e seu olhar tão atento ao nada.
          - Preciso me casar com você.
          - Bem... Isso foi um pedido?
          - Não. Mas eu preciso.
          - Então nos casamos.
          - Amanhã?
          - Amanhã.
  

sábado, agosto 18, 2012

Can you imagine no [...] your best friends always stickin' up for you?

Oi. Como você tá? Como foi seu dia? Lembra como essas perguntas eram tão pertinentes? Todos os dias elas estavam lá para nos cercar. Para nos aconchegar e nos fazer perceber que tinha realmente alguém ali que se importava com a resposta. Espero que lembre. Desculpa, não quero que o texto fique muito formal. Afinal, a gente nunca foi assim mesmo.
"Sabe aquela coisa especial que as pessoas nos filmes têm que sempre deixa a outra melhor? Então, eu não tenho isso. - É, eu também não". Cê lembra disso? Foi num dos nossos primeiros contatos. Você tava mal, não sei por que, e eu te falei isso. Tá vendo que coisa idiota? Mas acho que deve ter funcionando pelo menos um pouquinho. Não lembro direito como foi o resto da nossa história até começarmos a nos ligar de sexta a domingo sem falta. Eu, você e Drino. Sempre. Mas mesmo quando ele não tava, o assunto rendia. Sobre o que mesmo que a gente falava? Ah, é, tudo. Livros e músicas principalmente. E eu cantava pra você EM INGLÊS, CARA, tem noção? Plmdds. Eu sinto falta disso. Das mensagens idiotas, das músicas, dos livros, das frases sem sentidos, dos choros de madrugada, de você me ouvir mijar. Cara, ultimamente tenho me sentido tão só fazendo xixi. Qual o sentido de mijar e ninguém tá te ouvindo? É o mesmo que cair e não ter ninguém pra rir, é um esdpetáculo desperdiçado. Nunca mais cantei Bom Dia, Drops Of Jupiter, Hey There Dalilah, 1997, Deixa Estar, Dashboard, etc, com/pra ninguém.
E aí, como fica? Sei que ferrei com tudo quando fui burra o suficiente pra te deixar ir por causa de um site idiota. Eu sei que você pode até ter me perdoado, mas não vou reconquistar tua confiança tão fácil. Eu fui muito idiota. Cara, olhando assim agora, me pergunto: CARALHO JULIA, COMO TU PODE SER TÃO BURRA? Sei que é impossível voltar pro que era, mas a gente pode tentar de novo. Você me conhece tanto, e mesmo que nesse tempo várias coisas tenham acontecido tanto comigo quanto com você, você ainda me conhece absurdamente bem.
"Deixe o orgulho de lado e venha correndo pros meus braçossssss :("
Quero sair contigo e dividir lanche do BK. Dar o golpe do refirgerante, roubar copos. Até segurar vela eu to topando com a saudade que to. Nossa amizade começou por acaso, mas não foi por acaso que ela deu essa esfriada. Foi por um erro idiota meu, e to querendo consertar
Eu sinto sua falta todo santo dia. Penso muito em ligar, mas tenho certeza que cê taria ocupada ou... sei lá. Sinto sua falta quando uma coisa boa acontece, quando uma coisa ruim acontece, quando nada acontece. Quando uma música foda aparece. Quando vejo algo sobre Los Hermanos ou uma frase d'O Pequeno Príncipe. Quando quero sair, mas não tem ninguém. Quando quero sair e tem gente, mas não tem você. Tá melodramático demais, eu sei, mas é que ultimamente tem sido assim.
Mas não se preocupa, tá tudo certo. Meus pais não brigam mais. A escola tá do mesmo jeito: gente fútil e ignorante, embora uma parte mínima seja excessão. No amor, pela primeira vez, eu to de boa. Mas do que adianta tudo isso se a gente não tem uma melhor amiga pra contar? Não sei direito se você foi a minha nem se eu fui a sua, mas pelo menos... era como se fosse. E mesmo que Ingrid, como namorada, tenha a tendência de preencher esse lugar (e ela é muito boa nisso), mesmo assim... não é a mesma coisa .Com quem vou falar sobre ELA? Sabe? Eu realmente devo ter sido muito idiota pra chegar no ponto de te perder. E ainda ser castigada com perder Vinicio. Os dois de uma vez só. Mas com ele ainda é a mesma coisa, só que ele tá mais longe e é quase impossível de vê-lo. 
Mas e agora? Cadê os amigos? "Um homem sem amigos é uma terra sem umidade, uma manhã sem orvalho, um céu sem nuvens. Os amigos não são os que nos bajulam, mas os que desmistificam nosso heroísmo e revelam nossa fragilidade. Um intelectual sem amigos é um livro sem conteúdo."
Então, pra finalizar, não quero mais um "- Senti sua falta também. -  Pois é, vamo se encontrar - Vamo, quando puder aviso. - Tá" E acabou. Não. Quero que a gente realmente saia e se veja. Quero que você me chame no chat, me mande mensagem e o caralho. Quero ligações. Quero Bianca Farias de volta e foda-se. Sua vida mudou? Ótimo, a minha também. É bom que vai ter muito o que atualizar. Tá sem tempo? Ótimo, to com tempo de sobra, ou seja, quando você puder estarei aqui.
Entendeu? Ótimo.
Eu te amo. 

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Munição de único lote.

Não consigo entrar num relacionamento, qualquer que seja ele, sem me doar cem por cento. Começo a admirar aquela pessoa e passo a administrar boa parte do meu tempo para conhece-la. Não consigo começar pela metade, pelo tanto-faz-que-você-está-entrando-na-minha-vida. Me entrego até a solidificação da estrutura do relacionamento, depois sigo o curso normal do "entregar-se". E sabe, tô ficando cada vez mais sozinho.

terça-feira, janeiro 24, 2012

Carta à Margaret, minha tão linda Maggie.

É interessante como o tempo afasta as pessoas como o vento afasta os grãos de areia. Tudo o que você precisa saber sobre mim você sabe, Maggie, eu nem precisei contar. Você veio e com um assopro derrubou toda a muralha que demorei anos para erguer. Foi bem interessante o modo como você parou e me observou. Me analisou, me fitou, me percebeu, me entendeu, me compreendeu por completo. Margaret, é nessa comum e mórbida manhã cinza de Surrey que te digo que todas as músicas pareceram desafinar desde que comecei a escrever esta carta. O rádio tá ligado como sempre, só que as músicas não fluem, as notícias não parecem mais tão alertantes ou amedrontadoras. Deve ser porque, assim como o ambiente influencia nas nossas emoções, nossas emoções influenciam no ambiente. Você precisa crescer, Maggie, e não é ao meu lado que você vai conseguir  isso. Sempre tive esse meu jeito outono de ser: meio morno, aparece todo ano em meios aos extremos, e que apesar de ter uma beleza inovadora dentro de mium, guardo pros olhos mais audaciosos; Que nem os seus, Maggie. Daí vem você, a primavera de ser, com esse teu charme febril e delicado, cheiroso e apaixonante apaixonado. Que delícia, Maggie! Somos épocas do ano tão diferentes, mas mesmo assim você conseguiu me alcançar. Como toda primavera, é necessário que você flua veementemente pelos infinitos cantos do mundo. 
Você vai estudar, sair desta cidade esquecida e ganhar o mundo. Ganhar o mundo resume aquela tão desejada, porém até bem alcançável, vida: apartamento perto de avenidas, café às seis, faculdades, ensinos, amigos que moram perto o suficiente para uma carona e quem sabe até um novo amor. Quem sabe não, você vai encontrar sim. E espero que eu também. Mas quero que saiba, Maggie, que não vou deixar de te amar. Você despertou em mim a flor mais linda que se pode habitar o coração de alguém. Agora você precisa mostrar sua voz de criança e sabedoria de mulher ao mundo. Eu sempre soube, desde nossos passeios de bicicleta aos sete anos, que se alguém teria o destino bem longe dessa cidade com um lugar declarado numa vida mansa e agitada com seus conformes seria você.
Eu te amo, Maggie, Minha pequena Maggie, grande Margaret.
Aqui se despede um homem que te amou com todo o coração.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Senso de interpretação.

Cartas que não pretendem possuir destinatário. Sabe, destinatário de vida, de assunto algum para se conter. Foi um furacão que levou isso tudo embora. O barco tá furado, ninguém sabe onde. Ao mesmo tempo que a água entra, ela se esvai; não pelo curso natural, mas algo a puxa para o esquecimento e talvez afunde o barco, mas ninguém percebe. Estes tripulantes estão mesmo se afogando em algo passivo de barulho e visibilidade. Mas desde que não se veja, não haverá catástrofe. Espero que entendam meu recado quando que todo rio precisa de um desague, pois senão haverá apenas umas represa. Mórbida e comum.

Carta ao súbito

Tô rodeada de gente
gente estranha
gente sem pele e sem toque
Cadê aqueles?
Aqueles que me viram direito
que pararam pra observar minha calma
Perdi
perdi-os
me perderam.

domingo, julho 10, 2011

Conta-gotas, conforto e cartas.



     De repente, o conta gotas parou de contar. O sino da igreja do centro da cidade não badalava há dias. Músicas tocavam ao invés disso: "As luzes se apagam e eu não posso ser salvo. Ondas contra as quais tentei nadar jogaram-me no chão deixando-me de joelhos". Ao ouvir a inquietude da cidade, resolvi me afogar naquilo que chamo de conforto. O mínimo confortável. Era apenas um quarto, uma cadeira e um olhar para todos os lados. Ao contrário do que todos pensam, havia luz. Uma luz fraca e artificial. Não brilhava, apenas viajava nos ares das quatro paredes. Intermináveis os tempos naquele salão em miniatura. Graças à Deus.
     Eu nunca tive muito medo se iria sair dali ou não. De fato, se perdesse a chave daquele quarto, não me importaria muito. Era fácil não se importar. Era fácil ir longe demais.
    Eu estava à espera de cartas. Cartas brancas e com remetentes borrados. Cartas com todos os meus pedaços juntos. Na verdade, não meus antigos pedaços sujos e quebrados. Não aceito devolução. Quero novos. Quero uma nova metade de um velho eu. Mas nada chegava pela brecha da janela de cima, minha única conexão com a fera do lado de fora.
     Nada chegou. Ainda.

Júlia Aleixo B.

sexta-feira, julho 08, 2011

Do lado de fora do quarto.

     Virou comum ver a garrafa verde meia vazia de água natural no criado-mudo ao lado da cama. Tanto quanto tudo naquele quarto virou comum. O cheiro do casaco preto novo me lembra você. Nada mudou desde o verão de 2007. Até os calendários padronizam-se com a regra do "Dane-se os dias, os horários e os céticos, faço do jeito que mando e que quero". A porta se fechou e o drama dormiu do lado de fora. Pura arrogância.
     Tudo virou rotina e me apaixonei por ela. "Ora, deixe o vento correr". Mas o que?! Sou dono do meu destino e da minha fé. Visto minhas próprias meias. Olho para o meu próprio céu. Se nada ocorrer bem, a culpa foi minha. Se tudo der certo, foi graças à Deus.
     E de novo a madrugada virou, me fazendo partir em busca da inquietude e da certeza de um amanhã incerto. A garrafa verde ainda continua lá, no mesmo criado-mudo, no mesmo quarto que não muda. Aprender que não se pode crescer onde nos sentimos salvos é ter certeza que está certo.

Júlia Aleixo B.

quinta-feira, julho 07, 2011

Já é Julho e ainda não dormi.

O carteiro não passou e as cartas chegaram. Todas com alguma conta ou lembrete de pagamento. Exceto uma.

"Querida Emily,
    Me afastei bastante, não foi, querida? Aqui não está fácil, ainda mais com esse tempo frio. Por que? Porque ele me faz querer você. Sinto sua falta todos os dias e acho difícil controlar.
    Nada demais têm acontecido por aqui. Meus dias estancaram na mesmisse. Passo pela porta da coffe house e não é você quem me espera. Todo mundo tem uma cara tão estranha, amor. Ninguém parece se importar com nada. Tenho certeza que metade das pessoas que observei estão mortas por dentro, mas ninguém percebe. Que jeito horrível de morrer.
    Tenho comprado filmes de terror, pois sei que você odeia. E sei também que assistia comigo só pra provar que você é boa demais pra mim.
     Amor, tenho tido insônia e calafrios. As noites são um inferno congelante enquanto você não canta em meu ouvido.
    Não se esqueça de mim nem do meu olhar pra você. Meu abraço é o único que te guarda e te protege. Em breve voltarei pra casa e você será minha. Voltarei em Julho, pois minhas férias começarão e as suas também que eu sei. Seremos felizes, querida. De novo. De volta.
    Eu te amo. Richard"

Mas, amor, já é Julho. As portas estão se fechando. Minha insônia está chegando ao fim. Irei dormir. Por favor, seja você a me acordar.