Enquanto voltava de uma viagem de comoção de parentes, passando por uma lombada, havia esse velho vendedor de amendoins, que era provavelmente cedo de um terceiro olho e estava no topo da montanha quebra-mola.
Encostei o carro e fiz sinal para ele ir junto. Ele foi.
-Eu te compro um pacote por mil reais.
- Mas senhor, são só dois reais.
- Você comprou por 50 centavos, no máximo, com certeza. Na banca a 150 metros daqui posso comprá-los por um real. Não existem roubos grandes nem pequenos. São só lucros.
- Que?
- Aceite.
- Não posso.
- Tenho uma arma no porta-luvas. Posso pegá-la e te matar. Posso jogar o dinheiro dentro da sua roupa, sua família vai achar e fazer o mesmo efeito de você pegar esse dinheiro agora. Só que estará morto.
- Tudo bem.
Fui embora e nem sequer olhei para trás. Ele deveria estar feliz e muito. Sua vida mudara e eu sou o culpado.
Vivi mais quatro vidas antes de voltar naquele lugar. Quando passei, ele não estava. Nem da outra vez, nem da outra.
Da quarta vez, resolvi perguntar ao velho da banca, 150 metros depois.
- O velho dos amendoins? Tá morto.
- Como? Quando isso aconteceu?
- Mataram. Há umas quatro vidas. Foi no bar da frente e tomou todas, gastou quase mil. Se meteu numa briga pela Rosa, a puta que ronda a esquina no bar, e levou três facadas no peito. O interessante é que ele nunca tinha ido no bar, não tinha dinheiro, o coitado.
- Ele não tem família?
- Não.
- Ninguém foi no velório?
- A Rosa foi. E eu também. O safado me devia dinheiro, fui lá ver se tinha algo na roupa. Nem tinha.
- Sinto muito.
- Tudo bem. Vidinha miserável a que ele viveu.
- Pode-se dizer que foi uma bênção ter partido? Digamos assim, uma felicidade?
- Sim. Por que?
- E a culpa é minha.
Saí feliz dali e de nada mais precisei.
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