Virei finalmente o copo de conhaque, o último da cidade. Não queria deixar o copo vazio, assim como eu. Aquelas gotas me diziam que de alguma forma eu não estava sozinho. Ora, dane-se. Que venha a solidão e a bagagem nas costas dela. Minha auto-suficiência há de agir. Vivi sozinho até que conheci a mais bela música da minha vida. Que, por sinal, agora toca em outros bares... lares. Nada de dramas ou saudades, só lembranças que devem ser esquecidas pela amnésia de um velho. Velho de alma e de olhares.
" E vai chegar uma hora que você vai precisar parar de sonhar, para começar a viver."
Dizia meu horóscopo na tarde da monótona quinta-feira. Poderia isso ser mais clichê? Logo com o mais cético dos homens de meia-idade da cidade.
Peguei meu casaco e toquei fogo no apartamento, nas lembranças. Fui nascer. Não renascer. Nasci de verdade. Finalmente, depois de anos tentando sair do ventre da ingenuidade, parti como um bravo forasteiro para a ironia da ignorância. Gostei.
Fui reto. Cheguei num bar e pedi duas doses de vodka. Conhaque agora é parte de um apartamento queimado. E agora que nasci, pra onde vou? Está tudo feito e dito. Serão novos objetivos a serem inventados e taxados como "impossíveis demais, estou com preguiça de tentar". Mas, de alguma forma, naquela cidade de nome de santo, consegui ver o céu mais claro e risonho. Deixei o peso pra trás e pude, pela primeira vez na vida, olhar pro céu e saber que ninguém era perfeito o bastante para nunca ser torto em relação a ele mesmo. Eu fui torto, fui quase caído. Estou reto, minha hérnia passou desde hoje.
Fui cigarros, agora sou fumaça. Fui quinta-feira, agora sou sábado. Sou um novo ser dentro do que já havia. Ainda sou eu, o velho. Como sempre.
Júlia Aleixo B.
Júlia Aleixo B.
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