domingo, julho 10, 2011

Conta-gotas, conforto e cartas.



     De repente, o conta gotas parou de contar. O sino da igreja do centro da cidade não badalava há dias. Músicas tocavam ao invés disso: "As luzes se apagam e eu não posso ser salvo. Ondas contra as quais tentei nadar jogaram-me no chão deixando-me de joelhos". Ao ouvir a inquietude da cidade, resolvi me afogar naquilo que chamo de conforto. O mínimo confortável. Era apenas um quarto, uma cadeira e um olhar para todos os lados. Ao contrário do que todos pensam, havia luz. Uma luz fraca e artificial. Não brilhava, apenas viajava nos ares das quatro paredes. Intermináveis os tempos naquele salão em miniatura. Graças à Deus.
     Eu nunca tive muito medo se iria sair dali ou não. De fato, se perdesse a chave daquele quarto, não me importaria muito. Era fácil não se importar. Era fácil ir longe demais.
    Eu estava à espera de cartas. Cartas brancas e com remetentes borrados. Cartas com todos os meus pedaços juntos. Na verdade, não meus antigos pedaços sujos e quebrados. Não aceito devolução. Quero novos. Quero uma nova metade de um velho eu. Mas nada chegava pela brecha da janela de cima, minha única conexão com a fera do lado de fora.
     Nada chegou. Ainda.

Júlia Aleixo B.

sexta-feira, julho 08, 2011

Do lado de fora do quarto.

     Virou comum ver a garrafa verde meia vazia de água natural no criado-mudo ao lado da cama. Tanto quanto tudo naquele quarto virou comum. O cheiro do casaco preto novo me lembra você. Nada mudou desde o verão de 2007. Até os calendários padronizam-se com a regra do "Dane-se os dias, os horários e os céticos, faço do jeito que mando e que quero". A porta se fechou e o drama dormiu do lado de fora. Pura arrogância.
     Tudo virou rotina e me apaixonei por ela. "Ora, deixe o vento correr". Mas o que?! Sou dono do meu destino e da minha fé. Visto minhas próprias meias. Olho para o meu próprio céu. Se nada ocorrer bem, a culpa foi minha. Se tudo der certo, foi graças à Deus.
     E de novo a madrugada virou, me fazendo partir em busca da inquietude e da certeza de um amanhã incerto. A garrafa verde ainda continua lá, no mesmo criado-mudo, no mesmo quarto que não muda. Aprender que não se pode crescer onde nos sentimos salvos é ter certeza que está certo.

Júlia Aleixo B.

quinta-feira, julho 07, 2011

Já é Julho e ainda não dormi.

O carteiro não passou e as cartas chegaram. Todas com alguma conta ou lembrete de pagamento. Exceto uma.

"Querida Emily,
    Me afastei bastante, não foi, querida? Aqui não está fácil, ainda mais com esse tempo frio. Por que? Porque ele me faz querer você. Sinto sua falta todos os dias e acho difícil controlar.
    Nada demais têm acontecido por aqui. Meus dias estancaram na mesmisse. Passo pela porta da coffe house e não é você quem me espera. Todo mundo tem uma cara tão estranha, amor. Ninguém parece se importar com nada. Tenho certeza que metade das pessoas que observei estão mortas por dentro, mas ninguém percebe. Que jeito horrível de morrer.
    Tenho comprado filmes de terror, pois sei que você odeia. E sei também que assistia comigo só pra provar que você é boa demais pra mim.
     Amor, tenho tido insônia e calafrios. As noites são um inferno congelante enquanto você não canta em meu ouvido.
    Não se esqueça de mim nem do meu olhar pra você. Meu abraço é o único que te guarda e te protege. Em breve voltarei pra casa e você será minha. Voltarei em Julho, pois minhas férias começarão e as suas também que eu sei. Seremos felizes, querida. De novo. De volta.
    Eu te amo. Richard"

Mas, amor, já é Julho. As portas estão se fechando. Minha insônia está chegando ao fim. Irei dormir. Por favor, seja você a me acordar.



De Janeiro ao outro dia.

E as estrelas me desnorteiam quando a noite volta. Me fazem lembrar do quanto a olhei e hoje as ignoro. As estrelas se apagam quando você volta a dormir. E na manhã seguinte, elas já têm sumido. Se me lembro bem, era vinte e três de janeiro quando vi minha estrela pela primeira vez. Ela brilhava mais que uma dama naquela noite. Será estrela-macho? Não tenho o costume de chama-la assim. Mas a amei desde o primeiro instante. Porém esqueci sua direção e ela se perdeu entre as princesinhas do céu. Minha rainha perdida entre princesas. Acho que torço pra que ela caia na minha mão, só enquanto vou no mercado ou enquanto corro pra escola. Minha estrela faz falta... o costume de olhar pro céu também.


quarta-feira, julho 06, 2011

De repente me sede de palavras, uma vontade insana de ser quem eu era.

Acaba de nascer um novo homem velho.



     Virei finalmente o copo de conhaque, o último da cidade. Não queria deixar o copo vazio, assim como eu. Aquelas gotas me diziam que de alguma forma eu não estava sozinho. Ora, dane-se. Que venha a solidão e a bagagem nas costas dela. Minha auto-suficiência há de agir. Vivi sozinho até que conheci a mais bela música da minha vida. Que, por sinal, agora toca em outros bares... lares. Nada de dramas ou saudades, só lembranças que devem ser esquecidas pela amnésia de um velho. Velho de alma e de olhares.
" E vai chegar uma hora que você vai precisar parar de sonhar, para começar a viver." 
     Dizia meu horóscopo na tarde da monótona quinta-feira. Poderia isso ser mais clichê? Logo com o mais cético dos homens de meia-idade da cidade.
     Peguei meu casaco e toquei fogo no apartamento, nas lembranças. Fui nascer. Não renascer. Nasci de verdade. Finalmente, depois de anos tentando sair do ventre da ingenuidade, parti como um bravo forasteiro para a ironia da ignorância. Gostei.
     Fui reto. Cheguei num bar e pedi duas doses de vodka. Conhaque agora é parte de um apartamento queimado. E agora que nasci, pra onde vou? Está tudo feito e dito. Serão novos objetivos a serem inventados e taxados como "impossíveis demais, estou com preguiça de tentar". Mas, de alguma forma, naquela cidade de nome de santo, consegui ver o céu mais claro e risonho. Deixei o peso pra trás e pude, pela primeira vez na vida, olhar pro céu e saber que ninguém era perfeito o bastante para nunca ser torto em relação a ele mesmo. Eu fui torto, fui quase caído. Estou reto, minha hérnia passou desde hoje.
     Fui cigarros, agora sou fumaça. Fui quinta-feira, agora sou sábado. Sou um novo ser dentro do que já havia. Ainda sou eu, o velho. Como sempre.


Júlia Aleixo B.

Assim o café esfria mais rápido.





     Vidros embaçados e corações quebrados. Uma xícara de café fumegante que foi preparado às cinco da tarde. Um moletom rasgado, a febre aparente e as meias afogadas no puro aconchego. Falar me faz soltar o ego na escrita. Caro ego, pra que apelas tanto se ao cair da noite és só tu contigo mesmo? Somo egoístas. Somos passistas e pacientes. Parasitas da própria vontade. O café das cinco esquenta a alma de quem um dia pertenceu a si próprio. Eu não. Eu apenas bebi mais um gole e deixei a cidade ainda com a alma perdida e o galope do passado atrás de mim. A saudade é inquietante; doce e amarga. Lembra-me de não esquecer que um dia me pertenci e a todos aqueles braços de abraços de amigos do peito. Que pedras sejam jogadas naqueles que nunca se perderam.
     Resolvi amar de alma para que, assim como a própria, esse tal de amor se esvaísse. Foi como se o café esfriasse mais rápido que eu. Mas ainda sinto o fervilhar na boca.
     Ainda dou-me ao luxo de inventar palavras. Permito-me ser poeta. Assim como você, não procuro um novo mundo, procuro minhas lentes de brilhantismo que a pouco perdi no quintal. Deve estar pela areia. Infame.
     A TV não consegue mais ficar no mudo. Até ela consegue expressão e eu não. Defeito? De fábrica. O café acabou, e se pouco há, é muito para fazer. Não se desvie no engano do controle avulso. Sinta medo e prazer. Se perca. Volte.


Júlia Aleixo B. Dedicado ao meu desconhecido mais conhecido, Adriano Camargo.