De repente, o conta gotas parou de contar. O sino da igreja do centro da cidade não badalava há dias. Músicas tocavam ao invés disso: "As luzes se apagam e eu não posso ser salvo. Ondas contra as quais tentei nadar jogaram-me no chão deixando-me de joelhos". Ao ouvir a inquietude da cidade, resolvi me afogar naquilo que chamo de conforto. O mínimo confortável. Era apenas um quarto, uma cadeira e um olhar para todos os lados. Ao contrário do que todos pensam, havia luz. Uma luz fraca e artificial. Não brilhava, apenas viajava nos ares das quatro paredes. Intermináveis os tempos naquele salão em miniatura. Graças à Deus.
Eu nunca tive muito medo se iria sair dali ou não. De fato, se perdesse a chave daquele quarto, não me importaria muito. Era fácil não se importar. Era fácil ir longe demais.
Eu estava à espera de cartas. Cartas brancas e com remetentes borrados. Cartas com todos os meus pedaços juntos. Na verdade, não meus antigos pedaços sujos e quebrados. Não aceito devolução. Quero novos. Quero uma nova metade de um velho eu. Mas nada chegava pela brecha da janela de cima, minha única conexão com a fera do lado de fora.
Nada chegou. Ainda.
Júlia Aleixo B.
