sábado, novembro 09, 2013

Tosse

não funciona se for assim, não funciona se for na brisa. não adianta marcar às doze e trinta no saguão do hotel numa espécie de reunião formal de colarinho branco.
tem que ser bruto, abrupto. tem que funcionar ligeiro, num quadrante semelhante. tem que ser numa catarse daquelas que se põe os dois punhos na boca e se quebra a mandíbula e se explode a jugular em vidros de potes de ouro.
tem que encher o pulso a ponto de quebrar o rolex. tem que fazer o turbante dar volta e meia e não meia volta.
tem que deixar a alma toda marcada, tem que amassar a lata de refrigerante e fazer a película antioxidante trincar. tem que fazer o resto do mundo todo se levantar e dizer chega e te puxar pelos cabelos e te mandar calar.
te cala que não to aguentando mais.
tem que tomar conta de você de uma forma que pareça possuído. vai te possuir e te mandar jogar na cara. foi o que o filme de ontem e o de antes de ontem e o da semana passada ensinaram, que você tem que esperar o desespero chegar e te ajudar a atravessar a rua sem data marcada, só pra dizer a ela que você ta louco por ela e que ela não se case com comunhão de bens, porque o coração e todo o emaranhado de fios na cabeça dela têm que ser seus.
mas são doze e trinta e cinco e você ta no saguão do hotel, e é assim mesmo que você vai dizer pra ela. cadê a sua cara suja? logo hoje você resolveu limpar. ela não vai ligar pro que você vai dizer, porque você vai estar vivo e nenhum pouco rachado ou bêbado enquanto disser e não vai haver amor nenhum no teu ar porque, quem se apaixona por sóbrios que sabem o que querem? faz um carinho no rosto dela e deixa isso pra outro dia quando tiver fedendo a sangue e suor e vendendo a alma pra falar isso pra ela. aí sim vai ter a importância que deve.

Porque se você ri das minhas piadas, você é a única que faz isso

e os cavalos vêm chegando e os artistas também. “quebre a perna”, “merda” e toda essa sinceridade mútua que cerca os espetáculos. é pau, é pedra, é vício de linguagem. é explosão que causa angústia.
e nada consegue ser mais clichê que um português sendo dono de uma padaria. venho aqui pedir por toda a comunidade dos casos perdidos que venda o estabelecimento e compre um lava jato, um cyborg ou uma loja de tecidos. algo que evite o imenso clichê da sua existência, senhor padeiro português que é resumido só a isso.
e eu nunca tive um pai que me levasse pra jantar reclamando do sistema ou me ensinasse que é nojento beber na boca da lata de cerveja porque você não sabe por onde ela esteve, mas senta em qualquer banco de praça velho que não sabe quem sentou. e vou usar isso como desculpa parar todas as minhas catarses elementares e superficiais que puder. “pra ajudar teu analista”, o meu vai muito bem, obrigada.
você não é nada que eu não possa ser.
e tem suas razões pra isso.
e to tentando calar o mundo com a ponta dos dedos e espero que tudo bem isso pra você, porque nada demais em se querer um pouco de silêncio pra pensar. pensa só e resta o pó.

Dias de flagrante

Num dia, quando você se pega apenas com a parte de cima da roupa e uma toalha enrolada na cintura, andando quase que mancando até o portão só pra ver o outro lado da rua pelo olho mágico com os olhos semicerrados de dor.
Num dia, quando você se pega provocando um vômito simplesmente porque passou mal. Você não quer ingerir a cura, você só quer tirar tudo de dentro. Não importa se o lado bom sair também.
Num dia, quando você se pegar deitado chorando no chão do banheiro pensando apenas em como gostaria de sumir sem machucar ninguém, em como vive apenas pra não decepcionar.
Nesses dias que você se flagra fraco. Esses flagrantes irreversíveis te inundam e te culpam. Escrevem “DRAMA” de vermelho na tua testa e te expõem pelado em meio ao parque da tua consciência.
Nesses dias de flagrante, que você vê o que de mais humano e carnal e demoníaco e divino há na tua pacata existência.

Tem espetáculo mais triste que o circo?

se em vez de fazer parte dela, me contassem uma história sobre a humanidade, eu riria como se ri de elefantes num circo e sairia dando batidinhas de leve nas costas do contador. não acreditaria. não acredito em nada que se possa pensar por conta própria que se consiga conviver com outros iguais mesmo assim. os propósitos e ideias se chocam o tempo inteiro. e vão. em vão. e vivendo a história, se vê que se vive matando por aí, matando aos outros com a mesma arma que se matou segundos atrás. porque ninguém ri de elefantes em circo. to dando batidinhas no meu próprio ombro agora por ser um elefante maltratado de um circo caro, que não nasceu para estar aqui.

Veste uma roupa limpa

como vai resolver a cor do papel que vai dizer que tá apaixonado? e a forma do rasgão? a cor da caneta e o jeito que vai dobrar? já pensou nisso tudo? porque não dá simplesmente pra chegar nela e dizer. imagina só! daqui a pouco ela te esquece e te deixa lá embalado a vácuo. mas se você escrever, aí meu amigo, é bem diferente. daqui a 5 anos e meio, ela vai abrir a caixinha cinza-marrom que fica no armário de sapatos e vai ver o teu bilhete. mesmo que tudo não passe de circo, ela vai lembrar de você e como era bom ter teu casaco por perto. e por isso tem que ser muito bonito o jeito que tu vai mostrar isso pra ela.
e veste uma roupa bem bonita também. porque quando rolar o flashback movido a nuvenzinhas e um efeito sépia ridículo, você vai querer que ela lembre que teu gosto pra roupas era horrível, mas que teu cabelo sempre caía perfeito sobre os olhos. e isso é sim mais sobre você do que sobre ela, porque ela já tem tua alma, tua casa e teu silêncio.
só precisa dizer o tanto de azul que ela derramou na tua cabeça e tá escorrendo por todo o teu colo, e nada mais. deixa isso bem claro pra ela. e que agora você tá até com vontade de sair dessa de maníaco-depressivo-paranoico-do-parque pra que ela não ache que você vai roubar a casa da vó dela ou coisa parecida.
mas diga a ela que tá tudo bem e que não precisa se preocupar com quem deve ser amanhã de manhã, e que o colo dela ainda é onde você quer chorar porque o puteiro não abriu ou a carne de ontem estragou.
ela não vai dizer que te ama. ela não te ama. lixo. ela só vai dizer que te quer junto. e você vai ficar junto dela, porque ela precisa de você e a coitada não tem culpa de você ser drama e colocar açúcar demais em tudo que ameaça ser bom. chamou atenção, agora dança.
e a cor do papel vai ser branca mesmo, por favor. porque vai amarelar e dar aquele ar meio rústico-vintage-foi-de-verdade.

Platão ta bem aqui

quero que você saiba que meu estado blues-sem-classe-nenhuma existe antes mesmo de você ou eu sabermos andar, e não é culpa sua.
na verdade, é sim porque eu te amo e você não me ama de volta, nem mesmo como agradecimento. mas não é sua culpa por eu reagir desse jeito dramático que não daria poesia nenhuma (sim, eu já devo ter tentado algumas vezes).
perdoa por eu ter me afastado, mas eu cuidei tanto de você tantas vezes por tanto tempo por tantas coisas que me davam tanta raiva. isso deve contar pra alguma coisa. não? imaginei.
isso aqui é só mesmo pra te dizer que sou drama e gosto disso, gosto mesmo. não viveria sem minha mania de dramatizar e poetizar e romantizar tudo. e também pra dizer que eu não fui atrás de você depois que disse que to apaixonada porque acho que isso não importa muito e que nossa relação que a gente achava estranho chamar de amizade porque nunca foi só isso mas nunca foi mais que isso, me pariu um filho chamado saudade. e mesmo que o Nunes diga que saudade é pra quem ama e sentir falta é pra quem ta com vazio, acho que sinto os dois.
e continuo achando que isso não vai mudar nada, só queria que você me visse forte e lutando por você, porque não quero que ache que você não vale a pena, porque você vale tudo que eu tenho. mas eu amo mais o fato de amar do que a pessoa a quem amo. e isso significa que, pra mim, sentir já é o suficiente.

Chora

então
tinha um cara que
todos os dias
dizia pra mulher dele que a amava
todo santo dia
de domingo a quarta a sexta
a domingo de novo
e aí
na quinta, ele esqueceu de dizer
ela chorou todos os dias depois disso
esse outro cara
nunca disse à mulher dele que a amava
ela sentia
ela sabia, a danada
na quinta, ele quis dizer
ela gargalhou todos os dias depois disso
e fizeram um filme
depois de um poema de caderno

Sábado, 24 de agosto de 1984.

Enquanto voltava de uma viagem de comoção de parentes, passando por uma lombada, havia esse velho vendedor de amendoins, que era provavelmente cedo de um terceiro olho e estava no topo da montanha quebra-mola.
Encostei o carro e fiz sinal para ele ir junto. Ele foi.
-Eu te compro um pacote por mil reais.
- Mas senhor, são só dois reais.
- Você comprou por 50 centavos, no máximo, com certeza. Na banca a 150 metros daqui posso comprá-los por um real. Não existem roubos grandes nem pequenos. São só lucros.
- Que?
- Aceite.
- Não posso.
- Tenho uma arma no porta-luvas. Posso pegá-la e te matar. Posso jogar o dinheiro dentro da sua roupa, sua família vai achar e fazer o mesmo efeito de você pegar esse dinheiro agora. Só que estará morto.
- Tudo bem.
Fui embora e nem sequer olhei para trás. Ele deveria estar feliz e muito. Sua vida mudara e eu sou o culpado.
Vivi mais quatro vidas antes de voltar naquele lugar. Quando passei, ele não estava. Nem da outra vez, nem da outra.
Da quarta vez, resolvi perguntar ao velho da banca, 150 metros depois.
- O velho dos amendoins? Tá morto.
- Como? Quando isso aconteceu?
- Mataram. Há umas quatro vidas. Foi no bar da frente e tomou todas, gastou quase mil. Se meteu numa briga pela Rosa, a puta que ronda a esquina no bar, e levou três facadas no peito. O interessante é que ele nunca tinha ido no bar, não tinha dinheiro, o coitado.
- Ele não tem família?
- Não.
- Ninguém foi no velório?
- A Rosa foi. E eu também. O safado me devia dinheiro, fui lá ver se tinha algo na roupa. Nem tinha.
- Sinto muito.
- Tudo bem. Vidinha miserável a que ele viveu.
- Pode-se dizer que foi uma bênção ter partido? Digamos assim, uma felicidade?
- Sim. Por que?
- E a culpa é minha.
Saí feliz dali e de nada mais precisei.

Tendências

quero voltar ao tempo me que era normal voltar pra casa com cicatrizes no joelho, na perna, na mão e no rosto. sua mãe não te peguntava o porquê. ela sabia que você tinha caído na rua correndo atrás de um gato. naquele tempo, ela sabia de tudo mesmo.
hoje em dia ela pensa que você passa a maior parte do tempo sozinho no seu quarto porque você não ama mais seus pais nem nada além da vida mansa que paira no ar abafado do seu continente longínquo.
não é mais normal aparecer com cicatrizes em casa.
e sua mãe não sabe mais de nada.
esse é o auge da geração prozac.

Por mim, tudo bem.

Tudo bem se você quiser trocar de calçada quando me ver voltando da padaria com samba-canção e chinelos e meia branca. E tudo bem se o motivo de você fazer isso não for vergonha de parar pra conversar com um cara vestido assim no meio da rua, mas sim porque você não aguenta olhar pra mim por saber que não vou te olhar mais daquele jeito. Tudo bem.
Eu já insisti em muita coisa, sempre por achar que me esgotar seria a resposta pra evitar arrependimentos futuros. E também por nunca querer ser o que vai embora. E agora, eu to dizendo que se você não gosta de mim, tudo bem. Não vou tentar fazer com que isso mude nem tentar ser o seu melhor-amigo-do-mundo-todo, aguentando suas neuroses, crises, apoiando sua cabeça no meu ombro e dizendo que você pode me ligar qualquer coisa, sempre. Não que você não mereça, porque você é daquelas pessoas “merece-tudo-que-tenho”, mas eu quero conseguir sair de alguma coisa ainda respirando, sem ter que me refazer por inteiro. Sem aquela coisa de apelar pro amor-próprio, deve ser isso mesmo, mas deixa o quarto meio escuro assim.
Obrigada por entender, tá tudo bem.